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Bioprogressiva - Uma rosa... É uma ROSA... É uma ROSA!

(sobre a individualidade nas decisões ortodônticas)

José Eduardo Pires Mendes (www.piresmendes.com.br)

Na viagem entre ETIOLOGIA e MALOCLUSÃO, da causa para o efeito, existe uma infinidade de fatores estranhos, misteriosos e rebeldes, que não conseguimos compreender completamente e que podem fugir ao nosso controle.

Talvez aqui resida a causa primeira da dificuldade que encontramos na Prevenção das Maloclusões. Felizmente a natureza dotou os seres humanos de uma codificação genética que determina o desenvolvimento da dentição, moldada e guiada por envelopes musculares representados por lábios, bochechas e língua e, cabe ao ortodontista rearranjar os dentes em uma área relativamente restrita. Se o complexo estomatognático fosse comparado a uma casa, nós seríamos, como diz GOTTLIEB em um de seus geniais escritos, os decoradores de interiores - aqueles que arrumam a mobília. Algumas das regras gerais são extremamente lógicas: não se pode colocar mesas e cadeiras no teto ou nas paredes. Outras são de natureza dimensional: não se pode colocar um sofá de 4 metros em uma sala de 3 metros, a não ser que primeiro aumentemos o tamanho da sala. Não se poderia dizer que existia um posicionamento da mobília que pudesse ser definido como de perfeita e de matemática precisão o que parece bem para uns, poderia não o ser para outros.

A ESTÉTICA é um dos componentes mais importantes do DIAGNÓSTICO e do PLANEJAMENTO do Tratamento Ortodôntico. A aparência facial preferida varia conforme a raça, o meio ambiente e a época. Até mesmo em uma mesma raça em determinadas regiões, haverá sempre ampla e variada gama de opiniões sobre oque é mais agradável do ponto de vista estético. Nenhuma medida ou grupo de medidas conhecidas satisfará igualmente de forma completa a dois indivíduos diferentes que poderiam perfeitamente ser... o ortodontista e seu paciente.

Talvez alguns de nossos PARADÍGMAS merecessem ser revistos. Por exemplo, temos usados nossas Classificações das Maloclusões como se elas "realmente existissem"... Deixamos de considerar quue há um número infinito de indivíduos que estariam, por assim dizer "esticados" para serem enquadrados em uma ou outra categoria. Algum lugar entre Classe I e Classe II seria... Classe 1 e meio, ou Classe 1 e um quarto, ou um oitavo, e assim por diante. Sob certo ponto de vista, talvez mais frio e realista (que certamente seria considerado pouco ou nada prático), a aceitação irrestrita das Classificações mais obscureceu do que clareou nossa compreensão do problema ortodôntico.Nossa busca sempre foi tornar a ortodontia mais científica através da exatidão matemática. Porém, parece que o que estamos conseguindo, é produzir mais inexatidão. KOSKO, citado por GOTTLIEB, escreveu: "os cientistas tentam encontrar a matemática que se adapta ao mundo, ou o mundo que melhor se adapta a matemática? Controem modelos matemáticos extremamente precisos para descrever pequenas peças do Universo e o próprio Universo como um todo. Passam toda sua bida profissional discutindo entre si seus modelos matemáticos e os de seus concorrentes. Porém, a certeza lógica da matemática jamais se confirma em toda sua totalidade".

Será que não estamos buscando fundamentar a Ortodontia em excessiva precisão matemática, muito além da inerente a seu próprio sistema? Às vezes parece haver uma certa inadequação fundamental da matemática convencional, com seus números, conjuntos, probabilidades e fórmulas, precisamente estabelecidos, para definir, analisar e regulamentar SISTEMAS BIOLÓGICOS.

Em seu livro "Holismo e Evolução" (publicado em 1926), J.C. Snuts afirma que o engano inicial reside no fato da interpretalçao do mundo como um aglomerado de dados binários. São artificias e estariam em completo desacordo com as continuidades caracterizadas pelos vários graus de penumbra dos espaços entre o claro e o escuro da ciência e da filosofia. Vivemos em um mundo em que algumas questões podem ser respondidas por um simples "sim" ou "não", dentro do sistema bivalente. Existem porém outras que não são tão simples e exigem um sistema polivalente. Os computadores, pela sua própria natureza são binários. Para eles, tudo é "0" ou "1". Não há possibilidade da resposta a uma pergunta ser "mais ou menos". Portanto, o que estiver entre "0" e "1", tem que encaixar-se e ajustar-se. Se considerássemos a ciência como "branco e preto", estaríamos cometendo um erro catastrófico, pois entre um extremo e outro, existem infinitas graduações de cinza. Para fotografar com precisão, a mais moderna câmeta digital, a MX-700, recentemente lançada pela Fuji, captura imagens com 1 e meio milhão de pixels (pontos que formam a imagem). Uma fotografia da mais modesta flor de nosso jardim é formada de 1 e meio milhão de pontos para reproduzirem as variadas nuances da reflexão da luz. É a busca da individualização. O total embassamento de um Sistema Biológico como a ortodontia em princípios norteados por uma linguagem binária, no mínimo nos vicia a tomarmos nossas decisões, que dizem respeito a saúde e ao bem estar de nossos pacientes, baseados em massificação de problemas por natureza altamente individuais. O processo que fez o sucesso industrial das confecções de "pret-a-porter", das roupas tamanho "pequeno, médio e grande" (e ainda Xlarge e XXlarge) também baseou-se na massificação. Quando estamos frente a um problema ortodôntico, o que temos de fazer é compreende-lo em todas suas particularidades, fazendo uma viagem ao passado, tentando entender porque e como ele evoluiu até tornar-se o que é no presente, e uma viagem ao futuro buscando prever qual será sua evolução. Afinal, DIAGNÓSTICO nada mais é do que a "Arte de conhecer através da observação". Em seguida, temos de "imaginar mudanças e estabelecer Objetivos", no Planejamento Dinâmico do tratamento. São processos que implicam em extrema INDIVIDUALIZAÇÃO. Utilizamos sim, as Classificações, bem como as Análises Cefalométricas, o V.T.O. e demais recursos como úteis "FERRAMENTAS DE RACIOCÍNIO", que nos possibilitam tomar as DECISÕES que melhor sirvam a resolução da problemática de um ser humano muito especial que é aquele que nos procura profissionalmente, respeitando toda sua INDIVIDUALIDADE. Sem negligenciarmos ou diminuirmos o valor da pesquisa científica (a mais valiosa de nossas "ferramentas de raciocínio"), tenhamos sempre em mente o valor das decisões oferecidas pelos programas prefabricados, as "receitas de bolo" que já fazem as delícias de ortodontistas empolgados com as maravilhas do mundo moderno.

É preciso cautela também com o Paradigma que caracteriza o exercício de nossa especialidade. Como um modelo de aprendizado, como as "regras do jogo" ele também é uma estrutura que GERA SUAS PRÓPRIAS TEORIAS E CONCEITOS, determinando diretrizes, estabelecendo regras, formulando suas próprias verdades.

Como diz Ricketts, cuidado com "pesquisadores que utilizam dados, como por exemplo a estatística, da mesma forma que o bêbado utiliza o poste - mais para obter apoio do que iluminação..."

De posse de nossas ferramentas de RACIOCÍNIO, cabe a nós ortodontistas otimizarmos nossas decisões, individualizando ao máximo o nosso tratamento ortodôntico. Cada componente do Sistema Estomatognático de um ser humano, merece ser avaliado individualmente, Não existem duas pessoas exatamente iguais.

Em sua divina individualidade, cada rosa é uma rosa...


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