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Terapia Bioprogressiva - Técnica ou Filosofia?

Autor(a): Prof. Dr. J. Eduardo Pires Mendes

Independentemente da terapia ortodôntica que praticamos, da técnica que escolhemos, todos nós ortodontistas temos os mesmos objetivos e buscamos cumprir três metas:

A-OCLUSÃO funcional estável - isso significa interdigitação cuspídea correta, dentes íntegros, tecidos de suporte saudáveis e acima de tudo, normalidade da ARTICULAÇÃO TEMPORO-MANDIBULAR.

B-ESTABILIDADE dos resultados obtidos - é importante que os dentes pela vida afora, permaneçam aproximadamente nas posições a que foram levadas pelo nosso tratamento, mesmo sendo submetidos às pressões resultantes das funções normais de que participa o sistema estomatognático.

C-EQUILÍBRIO funcional e estético - para que haja estabilidade, é necessário que haja equilíbrio e os caminhos que levam à normalização das funções e à estética correta sejam os mesmos. Buscamos situações onde as funções sejam desempenhadas eficientemente e a aparência estética bela e agradável. Afinal, vendemos sorrisos.

A Terapia ortodôntica idealizada pelo Dr. Robert Murray Ricketts, hoje amplamente divulgada e com seguidores entusiásticos nos quatro cantos do mundo, nos oferece um caminho seguro para que possamos alcançar esses objetivos.

Ela nasceu por volta de 1950 e seus fundamentos foram sendo solidamente estabelecidos através dos trabalhos científicos desenvolvidos pelo Dr. Ricketts, um dos mais profundos e produtivos pesquisadores do campo da ortodontia. Dele se poderia dizer, sem medo de exagerar, que é um dos cérebros que melhor compreenderam a dinâmica e a problemática do complexo dento-crânio facial.

Conhecida como a Técnica de Ricketts, a Terapia Bioprogressiva é muito mais uma Filosofia do que uma simples técnica. Por definição, técnica é uma série de procedimentos que nos permitem realizar determinado trabalho. Filosofia significa muito maior amplitude, um conceito muito mais amplo de procedimentos que visam um tratamento global da face e não apenas uma técnica de movimentar dentes.

Embora possa até parecer pretensiosa essa afirmativa, é perfeitamente justificada por estar ela solidamente alicerçada, de forma inteligente, em princípios que fazem parte da estrutura da ciência de maneira geral.

Os Sete Princípios da Filosofia Bioprogressiva

1º Princípio: "Considerar o ser humano como um todo"

Na realidade, nosso esqueleto é como se fosse uma "torre de ossos" ligados por articulações. São 206 ossos.
Ele é recoberto por uma complexa massa muscular, mais de 600 músculos que são como cabos cuja tração sobre os ossos torna possível o movimento. Essa trama muscular é percorrida por uma rede de vasos que transporta o sangue à todas as partes do corpo e por uma intrincada rede nervosa. A única função do músculo é a contração, e trabalhando aos pares (Flexores e Extensores), ou em grupos, sua contração alternada e sincronizada (coordenação motora) nos permite realizar movimentos desde um simples gesto até a quase inacreditável sofisticação de um salto mortal triplo.

Na permanente luta entre osso e músculo, este vence. O músculo, em certas condições, se adapta, mais o osso pode ser obrigado a remodelar-se pois A FUNÇÃO DETERMINA A FORMA (Moss). Sofremos permanentemente a ação da força da gravidade, e durante toda nossa existência, buscamos por todos os meios o equilíbrio. Em nossa posição ereta, a cabeça equilibra-se sobre a coluna vertebral pelo antagonismo muscular da cadeia cinética (Brodie) e todas as forças que produzem movimento no sistema estomatognático diretamente influenciadas pela posição postural da cabeça. (Sollow). Isto nos leva a considerar que ao se discutir RELAÇÃO CÊNTRICA X OCLUSÃO CÊNTRICA, deveríamos prestar mais atenção à postura da cabeça.

O músculo foi o primeiro fator que fez da ortodontia uma especialidade - a conscientização que a posição dos dentes dependiam das ações dos músculos, boa parte dos quais estavam fora da cavidade bucal. Isto exigia de nós conhecimentos mais profundos de uma área que não era familiar a outros setores da odontologia e forçou-nos a procurar nossos próprios caminhos (Ricketts).

A identificação do tipo facial do paciente (Bjork) nos permite compreender o papel dos músculos que condicionados pela determinante genética moldam e direcionam o crescimento facial. A compreensão destes itens básicos nos permite diagnosticar desvendando a evolução da face no passado até o presente, bem como antecipar a continuação do crescimento no futuro, até a maturidade biológica, adequando de maneira inteligente nossos objetivos e nossos procedimentos terapêuticos. Fatores nutricionais e suplementação dietética fazem parte também de "CONSIDERAR-SE O SER HUMANO COMO UM TODO".

2º Princípio: "Pensar biologicamente"

É preciso que nos detenhamos a pensar sobre o que ocorre a nível biológico quando aplicamos uma força em um tecido vivo. Afinal, nossa especialidade nos situa muito mais como bioengenheiros do que como médicos - tratamos mais de distúrbios funcionais e suas conseqüências do que patologias propriamente ditas. Brian Lee apresentou uma tabela de avaliação das superfícies radiculares expostas ao movimento, ou seja, aquela parte da raiz que se contrapõe ao movimento, que "enfrenta" o osso provocando sua reabsorção e calculou que 100 gramas/cm quadrado é a pressão ótima para que as modificações histológicas se processem dentro de um limite de segurança.

O emprego do prefixo "BIO" em Bioprogressiva, significa que esta é uma terapêutica cujos métodos conseguem determinar a pressão adequada a determinado movimento e a elaboração dos dispositivos mecânicos capazes de desenvolver a força ótima, ao mesmo tempo controlando as unidades de ancoragem. Forças leves significam respeito aos tecidos vivos.

3º Princípio: "Raciocinar funcionalmente"

É importante que compreendamos o funcionamento do corpo humano. Quando falamos em função, dizemos músculo. Para citarmos apenas um exemplo, consideremos a síndrome da obstrução respiratória nasal, que Bimler chamou de displasia microrrínica.

A alteração de uma função normal afeta morfologicamente os componentes de um sistema e neste caso específico, a diminuição da insuflação aérea no terço médio da face pode ser responsável pela atresia da arcada superior enquanto que a boca sempre provoca uma rotação da mandíbula no sentido horário. Isto nos leva a planejar nosso tratamento "EM DIREÇÃO AO NORMAL" ou seja, procurando harmonizar determinada estrutura que encontra-se alterada por fatores que sobre ela exerceram sua ação, em relação a outras estruturas da face do mesmo paciente.

Raciocinar funcionalmente é sempre termos em mente as duas leis que governam a funcionalidade dos organismos vivos: "LEI DA ECONOMIA DE TRABALHO" e "LEI DA AUTO-PRESERVAÇÃO". A compreensão destas leis ajuda o ortodontista a entender o problema e planejar o tratamento, procurando restabelecer condições para a funcionalidade correta, fator preponderante do equilíbrio e estabilidade dos resultados.

4º Princípio: "Racionalizar a estética facial"

Em nossa busca pelo equilíbrio entre função e estética, é necessário utilizar um processo de racionalização da estética, embora concordemos que a beleza é antes de tudo subjetiva. Mas a ortodontia ainda é meio ciência e meio arte (Angle). Atribuindo-se valores numéricos aos esquemas cefalométricos, podemos raciocinar dispondo os componentes da face, no nosso planejamento, em arranjos mais harmoniosos. Os trabalhos de Ricketts e de outros pesquisadores sobre a proporção divina podem ser aplicados na nossa cefalometria dinâmica no planejamento do tratamento.

5º Princípio: "Compreender as projeções no futuro"

O diagnóstico é a parte mais importante do "quebra-cabeças" ortodôntico. Dele deriva diretamente o Planejamento do Tratamento. Se errarmos nosso diagnóstico, pouco ou nenhum valor terá nosso planejamento.

É parte integrante do diagóstico compreendermos as influências que sofreram os componentes do sistema dento-craniofacial até a situação atual, fazendo uma incursão ao passado (ANÁLISE ESTRUTURAL - LANGLADE). A partir daí, podemos antecipar em uma viagem ao futuro, o comportamento das estruturas faciais na sua trajetória de crescimento, nos pacientes com idade ortodôntica ideal. Este raciocínio cibernético nos permite fixar metas de tratamento mais visíveis, bem como selecionarmos nossos dispositivos e aparelhos para que possamos atingir nossos objetivos.

O ortodontista Bioprogressivo "COMEÇA SABENDO COMO VAI FICAR". Sabendo-se em que direção os pontos cefalométricos aumentam pelo crescimento e quais os incrementos médios por ano, podemos projetar o crescimento até a maturidade.

6º Princípio: "Adquirir cultura científica"

Na filosofia Bioprogressiva procuramos permanentemente aperfeiçoar nosso raciocínio (PENSE GRANDE). É importante que compreendamos o problema ortodôntico na sua totalidade tendo sempre em mente que o portador da maloclusão é um ser humano com toda sua complexidade e não simplesmente uma boca cheia de dentes. Informações de todas as áreas pertinentes nos são úteis para que possamos melhor servir a nossos pacientes.

7º Princípio: "Adotar nova postura frente ao aprendizado"

Este princípio é de interesse de todos nós ortodontistas, eternos estudantes, mas principalmente daqueles que se iniciam em nossa especialidade. É preciso que nos convençamos de que ninguém nos ensina nada - SOMOS NÓS QUE APRENDEMOS.

A competência de um profissional nesta forma de terapia ortodôntica idealizada pelo Dr. Ricketts e que vem sendo constantemente enriquecida não só pelo seu trabalho contínuo, como pela contribuição científica de muitos de seus discípulos e colaboradores, exige de nós um ENVOLVIMENTO PESSOAL.

O excesso de "máquinas" e "fórmulas mágicas" apenas massificam ainda mais a ortodontia. Todo esforço que aplicarmos na compreensão e no aprendizado desta filosofia ortodôntica MODERNA, INTELIGENTE e SOFISTICADA, é amplamente compensador.


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